Wednesday, March 18, 2015

MUITO GRANDE & MUITO BICHA - Uma história afeminada.


 Estava eu, hoje, cortando meus cabelos e conversando com Jaqueline, a cabeleireira, que havia terminado com o namorado e não sabia se voltava ou se largava de vez, quando, numa olhada rápida pelo twitter, me deparei com isto:



Segurei Jaque nas mãos e perguntei "que ano é hoje", e ela me disse 2015, então choramos. Choramos pelo que está se tornando a humanidade, essa coisa feia, mesquinha, onde temos que trocar tapa para pedir respeito e berrar para pedir silêncio.

Óbvio que isso gerou discussão e no meu submundo amado do twitter, a coisa, (como sempre) se dividiu entre os que odeiam esses dois, e os que os defendem. Estes últimos são os que me deixam pasmo.

Pensei bem, e olhando para essas carinhas, talvez, eles ainda sejam jovens e tenham que amadurecer um pouquinho, lembrem-se, que cada um de nós já falou barbaridades por ai e depois pensou "mas que merda eu disse", ou viu uma foto antiga sua, de cabelão, vestido de preto com banda de rock... OK, para, isso fico para o próximo.

Uma coisa eu tenho que admitir. Eu também já pensei assim.

Really Queen?

O nome disso pode ser preconceito, ignorancia, burrice, mas vou te dizer. O nome disso é medo. Quantos de nós, no nosso processo de aceitação, na nossa busca por auto compreensão, não nos pegamos negociando com nós mesmos, nosso jeito de ser, nosso estilo, coisas que podemos disfarçar, mudar, adaptar? Isso é medo! Medo de dar a cara a tapa! Medo de ser julgado, de ter que ouvir desaforo, de não saber se defender. Puro medo.

O que esses dois ai não sabem, é, que, se não fossem os gays mais afeminados, mais escandalosos, mais poc-poc, ou pão com ovo (como queiram. Nomenclaturas não faltam), nenhum de nós estaria aqui. Seja beijando numa novela da globo, seja postando foto sem camisa no Grindr, seja no escurinho de um cinema alternativo curtindo um bom curta metragem russo, viadagem todo mundo tem e é importante curti-las. Se não fosse essas pessoas que não tiveram medo de quebrar as barreiras do que é considerado aceitável, nada do que fazemos hoje nos seria permitido. 

O que esses dois também não sabem, é que, a luta da comunidade LGBT (alô minha comunidade), não é só uma luta de gênero, ou uma luta pra poder ficar com gente do mesmo sexo e acabou por ai. Não! É muito mais que isso! Nossa luta é para que você possa fazer da sua vida aquilo que você bem entender! Seja pintar o cabelo de loiro, escovar, por calça skinny e sambar na cara das inimigas, seja, malhar pra caralho, deixar uma barba enorme e usar uma peruca loira enorme para colocar tortas na janela (sic), seja para apreciar bons vinhos e ser fino e educado, seja ser caminhoneira, MPB lover, ou patricinha maquiada e gostar da Sandy. Vida, assim como cu, cada um tem o seu, só se metem se você achar que vale.

Todos nós, enquanto seres humanos, temos que entender que, cada um de nós, gay, hetero, branco, preto, pirata, papagaio, ou bolinha de gude, enquanto estivermos nesta terra, estamos buscando respostas para algumas perguntas que jamais serão respondidas. Uns buscam essa resposta na igreja, uns na realização profissional e outros, na discografia da Cher; o importante é entender que: a vida do coleguinha, ele vive como quiser. 


Para terminar, senta que lá vem a história: 


Quando eu era jovem (2.200 anos antes de Cristo) eu estava afim de um carinha. Resolvi pedir para os amigos investigarem se haveria possibilidade de algo acontecer, ao que ele respondeu: "O Bruno? Nossa, não! Ele é #MuitoGrandeEmuitoBicha. 

Fim. Dor. Morte.
Chorei muito ouvindo Regina Spektor até lembrar que homem não chora. Homem não chora, não dança, não sofre por amor, não pede caipifruta, não come kiwi, não faz as unhas, não usa camisa rosa, não levanta o dedinho nem cuida do cabelo. Homem não faz porra nenhuma e foi o que fiz. 

Durante um tempo, virei machinho. De camisa polo, heineken na mão e comentando alguns lances sobre futebol (que eu amo mesmo, ainda hoje, vai Curintia e tal), fui machinho e assim vivi. Enquanto meus amigos falavam sobre cabelos, paus e sapatos, eu me restringia a falar sobre filmes e jogos de video games, talvez política; Cher, nunca, jamais.  (Perdão, eu não sabia o que estava fazendo).

 O que acontece é que a gente acha que vai se ajeitar mudando apenas o lado de fora. Eu malhei e me fantasiei de menino e nada mudou. Ainda tinha minhas dúvidas, meus medos, minhas paranóias (estas, nunca se foram). Mesmo desse jeito, continuei sem pegar ninguém.

 Durante uma festa de Magra, ex Magra, atual Forte Vasquez, eis que começou a tocar "Vogue" da divindade Madonna. No começo mexi só os pés. Depois as pernas. Até ela chegar em "Greta Garbo and Monroe, Dietrich and DiMaggio". Magra me olhou e sabíamos o que deveríamos fazer. Nos levantamos e arrasamos. 

 Coreografamos e interagimos com o publico - que não gostou nadinha, mas, e dai? Naquele momento eu percebi que eu ainda era sim MGMB e que nunca ia mudar. E que se eu tivesse que escolher entre "Vogue" e meninos bonitos, eu escolheria Vogue e amigas que fecham.

 Esta foi a minha jornada. Isto foi o que eu precisei passar para aceitar quem eu sou. É óbvio que eu ainda estou buscando as minhas respostas, mas uma coisa eu aprendi, não na vida e sim no final de cada episódio de RuPaul's Drag Race: If you can't love yourself, how in the hell are you gonna love somebody else? 

Para esses dois: Pensem nisso e deixem a bicha bichar! 

Can I get an amen? 





Wednesday, November 19, 2014

Um conto. A catástrofe.


Como paizão moderno, Seu Antônio há muito havia trocado o jornal pelo celular na hora de ler as notícias pela manhã. Quem convenceu foi o filho Ricardo, que é todo certinho e metido a ambientalista; no fim, a esposa também gostou do espaço economizado e não ter aqueles papelões cheios de notícia ruim espalhados pela casa.
 Numa manhã qualquer, dessas que nem se sente, de tão absolutamente igual as outras, Seu Ricardo pegou o celular, seu mais novo companheiro, (tinha até o gatinho virtual), desenhou na tela o padrão que desbloqueia o aparelho e abriu seu aplicativo de notícias preferido, mas ao ver a notícia em destaque, seu coração parou: "Bruna Marquezine aposta em mini-saia para ir ao shopping". Tremendo, deixou o aparelho cair sobre a mesa com um baque. Sua mulher, D. Sônia que estava passando o café, ao ouvir o som do aparelho caindo sobre a mesa de madeira, se virou e encontrou o marido atônito, com lágrimas nos olhos, branco como leite e tremendo. "O que foi amor?" (mesmo depois de 37 anos de casados, os dois ainda se chamavam de amor).

 Ele lentamente olhou para ela. Não sabia o que dizer. Não sabia como falar aquilo, então, virou seu smartphone companheiro para ela que então leu: "Bruna Marquezine aposta em mini-saia para ir ao shopping". Deixou cair a garrafa térmica e o café quente espalhou-se pelo chão, fumaçando e enchendo a casa com aquele cheiro típico das manhãs. Sônia, sempre mais calma, correu em direção ao marido e o abraçou. Soluçou baixinho, mas jamais deixaria transparecer que estava desesperada, que queria correr, que queria se proteger. O marido tremia, mas fora isso não esboçava nenhuma reação, até que, num salto, agarrou-a pelo braço e correu para a sala, onde ligaram a televisão. Como era de se imaginar, lá estava um repórter, com aspecto abatido, dizendo com toda a seriedade que a situação necessitava "Estamos ao vivo de Brasília para confirmar a informação de que Bruna Marquezine apostou em uma mini-saia para ir ao shopping, repetimos, Bruna Marquezine foi de minissaia a um shopping, pedimos a população que mantenha a calma, o governo já acionou o exército e está fazendo tudo o que pode para controlar a situação". 

 Neste momento o filho mais velho, Roberto, desceu as escadas apressado, ainda vestido com as roupas de dormir, perguntou "vocês já viram?" de mãos dadas, bastou um olhar para que os dois o respondessem. O pai sempre criticou o filho, por não ter saído da casa dos pais, mesmo com 34 anos, mas neste momento, Antônio deu graças a deus que ele estivesse ali. Pais e filho se abraçaram e ficaram assim por um tempo. O único som era o da televisão que transmitia baixinho o escarcéu nas ruas. 

 O som dos carros partindo em disparada, pessoas correndo e gritando, o repórter na televisão estava emocionado "este é o momento de abraçar os seus queridos e dizer o quanto vocês os amam" e era isso que a família Souza fazia inconscientemente. Eles estavam abraçados chorando baixinho. Do lado de fora gritos de pânico, barulhos de freio, tiros, helicópteros em revoada. 

Foi então que Antônio foi afrouxando o laço, aos poucos, foi se soltando e olhando para o nada ele proferiu as palavras, como se elas não significassem nada: "a arma" ele disse. O filho e a mãe se olharam, mas não houve pavor. Sônia, tocando o braço do Marido perguntou "você tem certeza? A gente pode sair dessa, o governo está agindo, talvez não seja tarde demais". Antônio, olhando-a com compaixão, vendo toda a beleza de sua mulher, mesmo mais cheinha, com rugas ao redor dos olhos, ela, a mulher que o conquistou, ainda estava lá. Sentiu felicidade. Se sentiu realizado. A mulher dos seus sonhos estava com ele neste momento. O filho mais velho, não saiu de casa, era meio galinha, mas era respeitado no trabalho, era um cara gente boa. O mais novo morava no Canadá, tinha uma mulher linda e duas filhas. Olhando para Sônia, ele disse "não há o que fazer. Bruna Marquezine apostou em uma minissaia para ir ao shopping. Não há nada que nós possamos fazer, não há nada que o governo possa fazer, não há outra saída". Ele disse isso sorrindo.

Os três subiram as escadas, foram até o quarto e o barulho de três disparos consecutivos foi a última coisa que se ouviu da casa dos Souza desde então. 

Thursday, November 06, 2014

Tópico atrasado: A cara de Renée Zellweger

Leiam tudo antes de começarem as acusações. Amo vocês.




Olá Magra, tudo bem?

 Esses dias bateu saudades de quando gastávamos toda a sua gasolina dando inúmeras voltas no quarteirão dentro do seu carro. Me lembro um pouco do pânico de te ver gesticulando e batendo no volante enquanto falávamos das putas da faculdade (puta = menina enjoada, chata, recatada. / Menina que dá muito = Diva, amamos). Lembra daquela que nos convidou para fazer o trabalho em grupo na casa dela e ficou sentada no sofá o tempo todo? Dai quando tiramos nota boa ela veio "é isso ai galera! Esforço em equipe dá resultados" - Isso é ser puta.

 Me lembrei de você quando estava vagando pela internet e me bati com uma notícia que me deixou estarrecido: Renée Zellweger foi para um evento e ela estava totalmente irreconhecível! Você viu? Liguei para o meu trabalho e disse que estava me sentindo mal, não iria trabalhar, mas, foi apenas uma desculpa para passar o dia inteiro em casa analisando tudo. Imprimi o antes e depois num papel A3, couchê fosco, 250g e colei na parede. Fiquei duas horas analisando todos os traços, cores, nuances. Chorei um pouco. Pedi uma pizza e uma coca cola de dois litros e assisti todos os filmes dela com um bloquinho do lado para ir documentando as mudanças no rosto. Chorei assistindo Bridget Jones. Pedi outra pizza, desta vez em uma outra pizzaria, pois, não ia deixar o mundo saber que eu pedi duas pizzas num mesmo dia.

No photoshop, coloquei uma imagem sobre a outra e reduzi a opacidade. Não podia ser.

 No fim do dia, cheguei a conclusão de que Renée deve ter entrado no consultório do cirurgião e ter dito "quero ser igual a Rosângela do 201, acho ela linda". E então ela virou a Rosângela do 201, como se ela tivesse arrancado a cabeça original e colocado a de Rosângela do 201 e decidido ir a premiação assim, mas ela se esqueceu que ninguém no mundo sabe quem é Rosângela do 201, coitada! Certamente, Renée ganharia nossa competição de cirurgias plásticas, lembrando o placar:

 EU: 2
 VOCÊ: 1
 RENÉE: Transplante de cabeça. #WINNER

Mas ai eu fiquei tão triste sabe? Fiquei imaginando o que a levou a fazer isso, tipo, ela é uma atriz famosa, respeitada, ganhadora de Oscars® (Melhor atriz coadjuvante por Cold Mountain) e muito bonita. Então, no meio da minha pesquisa eu me lembrei. Tipo, lembra que todo mundo dizia que ela parecia estar sempre chupando um limão por causa dos olhos apertadinhos? E que as vezes, as pessoas gritavam "abra os olhos Renée" quando ela passava no tapete vermelho? Pois é. Então eu fiquei triste mesmo! Fiquei triste, pois, ninguém, nem mesmo a Roxy de Chicago está livre de ser julgada por sua aparência. Nem mesmo com um Oscar® em mãos as pessoas vão parar de olhar todos os seus defeitos para querer te diminuir.

 Nós passamos por isso na época do colégio. Não falarei aqui dos acontecimentos das aulas de educação física, pois, nem na terapia tive forças, mas a gente sabe, mais do que ninguém como é ter todo mundo falando de algo na sua aparência. Emagrecemos e um dia fizemos plásticas (eu duas e você uma, só para reiterar), nossas caras não estão "irreconhecíveis" (ainda), mas sabemos que é só uma questão de tempo, afinal, pretendemos ser, no futuro, um encontro belíssimo entre Elza Soares e Donatella Versace. Sairemos com nossos lábios super preenchidos de colágeno para ir tomar sopa em lugares públicos e ver as pessoas correrem em pânico, ligarem para seus entes queridos e dizer o quanto os amam, antes que seja tarde (mal posso esperar). 

 Então olhei para o retrato de Renée e vi uma mulher bonita. Loira, bonita. Talvez esteja mesmo muito diferente, mas bem, ela ganhou um Oscar® de melhor atriz coadjuvante, ela foi a Bridget Jones! Essa mulher tem dinheiro para fazer um transplante de cabeça! Ficaria triste se soubesse que ela fez tudo isso por pressão de terceiros (lembra de quando ela foi um tamanduá bandeira em Family Guy?). Espero que ela tenha feito pelo puro prazer de ter feito uma cirurgia plástica (talvez devêssemos convidá-la para tomar sopa em público), talvez ela deixe de ser Rosangela em alguns momentos e vire um cover da Cher ou um agasalho de lã, não sei e não tenho que saber, só espero ter dinheiro para transferir minha cabeça quando as coisas estiverem caindo, que pelas minhas estimativas, começará a acontecer daqui a cinco anos, mais ou menos.

A corrida continua para nós.
Que vença o melhor e mais plastificado.

Beijos de lábios esticados com colágeno,
Feliz. 

Tuesday, November 04, 2014

A divisão do Brasil.



Neste último sábado, dia primeiro de novembro, milhares de brancos ricos cancelaram seus planos de fim de semana e fizeram algo que não lhes é costumeiro: Foram às ruas. Pediram o impeachment da presidente reeleita democraticamente, com os argumentos de que ela não é quem eles queriam lá. Os meninos mimados estão putos por terem perdido esta. Tão putos, que, cansado de viver numa suposta ditadura comunista, clamavam por uma "intervenção militar" para livrar o país de se transforma em uma Cuba. Traduzindo: Uma ditadura para acabar com outra ditadura, mas, desta vez, uma ditadura deles e para eles, que os deixe tranquilos com o dinheiro no banco e podendo ignorar os pobres e oprimidos deste país tão vasto.

Afinal eles não viveram o outro lado da ditadura. Não foram os parentes, amigos e amados deles que sumiram, ou, que foram torturados. O presidente que eles queriam, estava ao lado dos torturadores e curtindo no Rio de Janeiro, enquanto a presidente que foi eleita era torturada.

Depois desta eleição tão apertada, que teve direito a pedido de recontagem de votos (pedido feito por eles), começou a se falar na divisão do Brasil. O fato de que esta divisão só foi vista por eles agora, - e por eles entenda este grupo de reacionários - só mostra o quanto este país mudou.

O Brasil é e sempre foi um país dividido. Desde o começo de sua história. Já foi dividido em capitanias hereditárias entre grandes nomes de confiança. Já foi subdivisão de Portugal e mais recentemente, na ditadura a divisão se deu entre quem queria a liberdade e quem achava que tinha mais é que meter o pau, cito, sobre este último, um exemplo atual: este ano, quando Miriam Leitão contou como foi torturada física e mentalmente enquanto estava grávida, o excelentíssimo Rodrigo Constantino, colunista do folheto Veja, decidiu dizer que, ela, também devia desculpas ao país por ter agido "daquele jeito" que a levou a ser torturada.

A "divisão" de hoje, é uma que, pela primeira vez, não os favorece diretamente. É uma divisão que favorece o lado mais fraco, em busca de uma igualdade, para que um dia não precisemos mais de divisão alguma.

A divisão não se dá entre ricos e pobres, sudeste e nordeste como muitos acreditaram. A divisão se dá entre dois projetos futuros para o Brasil, um projeto mais americanizado, onde se favorecem os ricos empresários e a economia, versus, um projeto onde todos terão direitos e oportunidades iguais e só então resolveremos juntos o resto. Isto não é comunismo, e não podemos chamar de ditadura um governo que foi eleito democraticamente. Mas, incomoda tanto a eles que estas pessoas hoje tenham voz e direitos, um auxilio do governo para começar, se manter, que quando é dado ao rico, é conhecido como investimento, quando este vai para o pobre que vivia abaixo da linha de pobreza é chamado de "esmola". Isso incomoda tanto que eles jogam aos ventos palavras como "Cuba", "Bolivarianismo", "Ditadura".


Mapa de Nova Cuba. 
Uma vereadora chegou a propor uma nova divisão do país entre Brasil (sul, sudeste e centro oeste) e Nova Cuba (norte e nordeste). Minas gerais, por ser parte do sudeste, mas ter dado vitória a Dilma seria transformado num enorme lago. Mesmo os votos do sul e sudeste para a presidente reeleita serem mais numerosos que do norte e nordeste, os que queriam esta divisão ou "ir embora do país", atitude que demonstra o quanto eles amam isso aqui (tivemos dificuldades, vamos embora) foram inúmeros.

Eu como bom nordestino que sou, tenho que fazer um desabafo. Olha, se pudéssemos medir o nível de nordestinisse de uma pessoa, numa escala de 0 a Auto da compadecida, eu sou o próprio Chicó. Meu sotaque é carregadíssimo, passei a infância ouvindo Alceu Valença, Gilberto Gil, Novos baianos, entre outros. Meu pai me contava histórias de cordel quando faltava luz. Sou uma mistura, pois, papai é pernambucano e mamãe é baiana. Acarajé é minha comida preferida e o Rio Vermelho é o meu paraíso. Meu avô tem vários frevos famosos aqui em Maceió, e, quando eu era pivete, já tive um mini boi de carnaval e fizemos folia no conjunto que eu morava, batendo latas e pulando. Já estive em SP só duas vezes e amo o lugar! Quis abraçar todas as pessoas diferentes que eu vi pela frente, quis saber a vida de todos os velhinhos japoneses, chorei no MASP, chorei, na Paulista, chorei no Ibirapuera, chorei no metrô porque achei o máximo, chorei quando tive que ir embora, tive frio o tempo todo, mas amei aquele lugar. Não senti preconceito por causa do meu sotaque, muito pelo contrário, todo mundo achava o máximo!

Para mim essa diferença gritante de culturas, ritmos, sons e sotaques, é o que faz o Brasil. Essa mistura toda é a coisa mais linda do mundo. Quem odeia nordeste e as pessoas que vivem aqui; convido-os a passar um tempo aqui. Se tu for na praia do francês e continuar odiando o nordeste, te deixarei em paz. Se tu for no carnaval de Olinda e continuar odiando, te deixarei em paz. Se tu for ver o por do sol no farol da Barra e continuar odiando, vou rir da tua cara.

Separar é a coisa mais triste, ainda mais, se tu pode dizer simplesmente, que isso tudo, faz parte da maravilha que é ser brasileiro.


Minha terra é a coisa mais linda. Conheça o Nordeste! 


Tuesday, October 21, 2014

Gourmet

 

Acho que as únicas coisas que tu precisa para sobreviver: dois pares de calça, três meias, cinco camisas e um bolinho de cuecas, e ai tu vai lavando enquanto dá. Acho que você não precisa de muito mais que isso. Roupa de marca é mó frescura, nunca tive, nunca me deram, nunca quis. Um amigo meu, que eu amo muito, disse que era justíssimo 300 pau numa camiseta! Numa camiseta, velho! Mas eu nunca entendi muito bem essas coisas, me expliquem como a bermuda custa menos que uma calça? Sei lá, a porra não usa menos pano?
 
 Também não gosto de coisa gourmet. Acho do caralho quem sabe cozinhar e tudo, mas dai a botar comida pouca no prato e sujar com molhinho, ai cobra 500 pau e diz que comida é arte, "feita por quem entende". Quem entende de comida é vó cara! Tanto que fazia muito e te empurrava uma porção maior do que a que você aguentaria comer.

 Tem uma barraquinha de "brigadeiro gourmet" a cada 30 minutos alguém abre uma dessas. Ninguém nunca vai lá, mas o vendedor tem sempre um ar superior, mesmo não vendendo um, e eu só queria um brigadeiro de brigadeiro, porque brigadeiro é gostoso pra caralho, "aaah, mas é diferente" eu sei, velho, mas com brigadeiro não se mexe! Muito menos se for pra fazer de batata doce com whey protein, isso deveria ser proibido! Docinho fit! Se é fit não é docinho, caras, parem com isso. Quer comer doce, coma! Depois corre na esteira, compensa na saladinha, mas não mexa no brigadeiro, pois, ele é sagrado.

 Também não mexa na minha cervejinha. Dra. Nutri me disse que não podia, se eu quisesse ficar bombado. Eu sou um mundo de dicotomias, dualidades; esse meu corpo é um acidente. Criei gosto por malhar, mas ainda tenho cabeça de nerd gordinho e ENFIM, acredito que uma coisa não impede a outra. Sou boêmio, sou gatinho, não adianta se esquivar, gosto da minha cervejinha, é como o meu salário no fim da semana corrida e sofrida "aqui, toma, tu merece essa tá gelada". É uma forma de me amar, mas talvez seja só alcoolismo.

Dra. Nutri disse que duas pode. Duas? Quem vive de duas? Ninguém, nem os gourmet. Os gourmet me vieram com cerveja artesanal. O cara abre que nem vinho, vai na tua mesa, mostra o rótulo (oba! Uma cerveja) abre a tampa e bota só um pouquinho na taça. Minha educação não me permite mandar voltar, não vou mandar voltar. Cerveja ruim do caralho! Caríssima, tinha cheiro de água de azeitona. Saímos e passamos no posto para comprar um latão. Tava gelado, bom e com sabor de "você fez por onde", não tem nada mais gostoso. 

Thursday, October 16, 2014

A tal da meritocracia.




A tal da meritocracia é um dos temas (dentre muitos) que mais vem enchido o saco do brasileiro trabalhador, sério e dedicado.

Queridinho dos reacionários e filhinhos de papai de camiseta Hollister, o termo considera o mérito, como aptidão, a razão principal para se atingir posição de topo. O principal argumento em favor da meritocracia seria que ela proporciona maior justiça do que outros sistemas hierárquicos, uma vez que as distinções não se dão por sexo ou raça, nem por riqueza ou posição social, entre outros fatores biológicos ou culturais. Lindo na teoria, mas, será que é assim na prática? TODO MUNDO SABE QUE NÃO!

Vamos supor que temos dois homens da mesma idade e com a mesma escolaridade disputando uma vaga de emprego. Um é negro e um é branco, quem tem mais chances de ficar com a vaga? Infelizmente, nós sabemos a resposta. A igualdade de raça e gênero no Brasil não são reais. Aqui o negro ainda ganha menos, a mulher ainda ganha menos, o homossexual tem que esconder sua identidade para conseguir um emprego. Será que a meritocracia realmente funcionaria num país tão hipócrita? Aqui, quem mais fala em mérito e trabalho, nunca precisou nem misturar o leite com nescau.

O Brasil está hoje dividido entre os que acreditam que o bolo só pode ser dividido quando ele crescer e os que acreditam que tem que dividir logo, mesmo que pequeno, para que todos tenham um pedaço igual.

Como eu falei no texto anterior, a elite brasileira encontrou o seu líder na figura de Aécio Neves, meu arqui-inimigo, (antigamente era a cantora Cláudia Leitte, a quem passei a amar, depois do hit "largadinho"). O bom vivant mineiro-carioca, baladeiro e mulherengo: A imagem perfeita do "macho alfa" outra lenda disseminada por ai, para fazer jus a uma falta de caráter. Aécin vida loka, fala em Meritocracia como se tivesse começado na vida como engraxate, e através apenas de seu conhecimento tivesse chegado aonde chegou. Mas a história prova o contrário.

Aos 25 anos, recém formado, foi nomeado pelo então ministro da fazenda, Francisco Neves Dornelles (primo de Aécim) Diretor de Loterias da Caixa Econômica Federal. Isso sem fazer concurso público ou ter que começar de baixo, subindo degrau por degrau, como qualquer outra pessoa teria que fazer.

Aonde está o mérito de Aécio? No fato de ele ser neto de Tancredo e filho de deputado? Onde está a justiça nisso daí? Fica claro então o modelo de governo defendido pelo PSDB. É o modelo que defende que se o rico estiver bem, ele vai, através de sua generosidade, ajudar o pobre: Mas nunca demais, afinal, alguém tem sempre que servir cafézinho nas reuniões de negócios, ou seriam de família? Neste caso, os dois.







Entre outras coisas que em pesquisando tudo dá:

Eita!


Tá parei. 









Monday, October 06, 2014

A elite arrogante brasileira encontra seu líder.




A elite arrogante brasileira é aquela que, nem ao menos sabe onde ficam as periferias da cidade onde mora, mas, se sente no direito de ditar o que o pobre pode ou não fazer, como ele deve usar seu dinheiro, quantos filhos pode ter, que música ouvir, que programas "de qualidade" deveriam assistir.

A elite arrogante brasileira é aquela que defende que, não se deve dar o peixe, e sim, ensinar a pescar, mas não empresta nem vara, nem isca, nem anzol, o pobre que se vire. "Eu tive que ralar muito para chegar onde eu cheguei". Ralou. Ralou jogando o nome do papai em entrevistas de emprego, nunca ganhou salário mínimo, nunca passou fome.
Para o filhinho tudo! Carro zero para ir à faculdade particular, ônibus nem pensar! Mas para o pobre, tem que ensinar a pescar e o governo não pode "sustentar vagabundo".

Há um desespero por parte desta elite, no momento atual, de assegurar os espaços que antes eram reservados só a eles, como as universidades, os aeroportos, as lojas. Hoje a classe C ascendeu, e a pobreza diminuiu, assim como os espaços deles. Mas eles não gostam de dividir, compartilhar. Não foram ensinados assim. Gostam do VIP, do exclusivo, do "posso pagar".

Essa elite encontrou seu líder no candidato Aécio Neves. Simbolo máximo da playboyzice política, o festeiro e putanheiro candidato, que figura tanto nas páginas políticas como nas colunas sociais, com seu olhar reformado por um lifting facial, e lábios visivelmente preenchidos com colágeno, age com uma superioridade arrogante nos debates, fala como conhecedor. De economia pode até ser, mas do social, não. Nos muitos anos de governo, o que o PSDB nos deu em melhorias para a população? Controlou a inflação e estabilizou a economia, ok. Mas isso é proposta para ricos, filhinhos de papai e aspirantes a CEO de empresas imaginárias. Nada que o governo atual não tenha feito. O candidato ignora a crise econômica mundial.

Bonito e bon vivant nada parece atingir o candidato. Nem mesmo quando em coro, o povo de Minas gerais gritou em 2007, no jogo Brasil x Argentina: “Ô Maradona vai se fuder, que o Aécio cheira mais do que você”.

Nem mesmo quando um helicóptero cheio de cocaína, ou uma pista de pouso construída ao lado da fazenda de seu tio, em Cláudio MG, Aécio parece se abalar e fala que "o povo não aguenta mais tanta corrupção". Quando questionado pela candidata do PSOL, se ele falar da corrupção do PT não seria o "sujo falando do mal lavado" o candidato, sem mexer uma ruga (talvez pelo lifting) bradou com o dedo em riste "não seja leviana, você está aqui como candidata a presidência da república".

 O candidato aparenta se divertir ao fingir que não tem o dedo sujo. Que com ele nada aconteceu, que seu passado é puro. Ele sempre tem um risinho irônico quando mencionam a privataria tucana e o "engavetador da república". Bom ator, ele parece realmente acreditar que o mensalão mineiro nunca existiu.

Para mim, votar no PSDB por causa da roubalheira do PT é como limpar o cu com papel carbono. Ambos os partidos são corruptos, todos sabemos que o mensalão começou no PSDB, mas, só foi denunciado pela grande mídia quando prática do governo Lula. (Por que será?)

O candidato surpreendeu ao chegar no segundo turno, no lugar que era certo de Marina Silva, com votação expressiva. Mas ele sofreu um duro golpe: Perdeu em sua terra, Minas Gerais para a candidata Dilma e mais: o candidato ao governo do PT ganhou no primeiro turno, derrotando o candidato do PSDB. Isso mostra que atrás da aparência inabalável, o candidato tem MUITO o que responder.

Para entender melhor, veja aqui a matéria do site pragmatismo político sobre as denúncias, pouco divulgadas pela mídia que falam sobre a ligação de Aécio com o tráfico de drogas.

E de presente para vocês o tumblr da vida: Aécim vida loka!

UPDATE: Este cara ilustra PERFEITAMENTE tudo que eu escrevi acima:


Tuesday, September 23, 2014

O xibom-bombom da discussão política.



Pelas redes sociais as eleições tem sido discutidas quase como briga de fandom de cantora pop. Há sempre um extremismo. Se você critica uma virgula que seja, significa que você, obviamente, está fazendo militância para a galera do outro lado, mas, uma discussão política não pode ser feita desta forma. É preciso questionar e apresentar argumentos concretos.

 Hoje, soube que existe uma proposta para tirarem do currículo escolar as matérias de filosofia e sociologia, matérias estas, que, acredito eu, são as que nos ensinam a pensar e questionar a merda que está a nossa volta. Numa pesquisa realizada em fevereiro deste ano, concluiu-se que: mais da metade dos universitários brasileiros sofrem com o analfabetismo funcional, ou seja, não compreendem o que leem. 
Olha, não me importa o candidato, (não entremos neste mérito ainda) não vou nunca aceitar uma proposta absurda (me recuso a acreditar que exista) que pensa em eliminar matérias tão importantes. Precisamos urgentemente de uma reforma no sistema educacional brasileiro (alguém já propôs isso?). Menos decoreba e mais contextualização, por favor! Não se pode ensinar geografia somente fazendo os alunos decorarem os afluentes do rio Amazonas, é preciso falar sobre a região, sobre quem vive lá, é preciso mostrar a realidade dos ribeirinhos. Não se pode ensinar história só perguntando datas, mas sim mostrando a influência das ações passadas no mundo atual. Estudar história não é falar em velharia, é um tutorial para se conhecer enquanto sociedade, enquanto país, mas ai está o verdadeiro problema.

 O sistema educacional brasileiro está criando pessoas que passam e concluem, mas não conseguem interpretar uma matéria num jornal. Então como ter uma discussão política? Ou seja: Há interesse dos políticos em deixar as coisas como estão: todo mundo quietinho, sabendo o que precisa saber, mas sem questionar nadinha, deixa pra quem vai resolver.

 A escola não está educando, ensinando, está manipulando. Principalmente quando enfiam goela abaixo a idéia meritocrática de que a educação é um privilégio e não um direito que deveria ser de todos. Há quem fale até em "escolha" e ninguém olha para os lados. E é assim, através deste sistema, que criamos os comentaristas de portal, os criadores de termos como "bolsa esmola" que criticam a todo custo qualquer proposta voltada para a melhoria da população carente. 

A escola, (particular) no Brasil, superprotege uma suposta elite, ensinando-os a achar que é deles o direito ao maior pedaço do bolo e os maiores privilégios, como por exemplo as vagas nas universidades públicas. É como a Dona Florinda e o Quico, a escola ensina as crianças a "não se misturar com essa gentalha" privando os alunos de um senso de realidade, uma noção  de si mesmos enquanto sociedade, enquanto pessoas capazes de mudar a situação. Nas escolas públicas, pouco se fala em crescimento e investimento. Todo futuro é muito para quem não tinha nenhum.


 Então como disseram As meninas no clássico do cancioneiro popular "bom xibom, xibom bom bom": "O destino todo mundo já conhece, é que o de cima sobe e o de baixo desce". Quando se inverte esta ordem e damos uma ajudinha ao de baixo, para que este, suba e alcance um lugar na sociedade temos um ódio cego, uma idéia maquiavélica de que estão tomando seu espaço, que vão acabar com tudo, transformar o país em cuba e fazer uma revolução que nunca vem. Este ódio veio desta super proteção, da privação da realidade onde se vive. Como discutir política de forma séria com quem acha que ciclovia atrapalha carro? Com quem é contra a faixa azul dos ônibus porque ele, só ele, vai chegar atrasado, mesmo no conforto do seu ar condicionado e mp3 player na Pajero 4x4? Com quem acha que as pessoas escolhem pedir esmola na rua (já ouvi este argumento).

 O que o sistema brasileiro está ensinando é isso: Que é cada um por si. Mas não é e nunca será. E a hora de acordar está passando nas nossas caras, mas há quem acredite que política é preservar apenas o seu, e nunca, melhorar o de todos. 

Monday, September 22, 2014

First, let me take a selfie.

A selfie do Oscar foi a imagem mais compartilhada na história do twitter. 

Criticada por muitos, amada por muitos mais e muito incompreendida, a selfie é a expressão máxima da geração atual. Sim, os jovens são "egocêntricos e vaidosos", mas, até quando isso é uma coisa ruim?

Eu particularmente sou apaixonado por selfies! Amo fazer e ver.

 O termo "selfie" é uma abreviação / apelido carinhoso para "self portrait" ou, tirar uma foto de si mesmo, o que antigamente era muito difícil, caro e desnecessário , (sou dos tempos da máquina de filme) imagine gastar uma das 22 poses com uma foto de si mesmo que podia simplesmente ficar uma bosta. Impensável! 

 Mas então vieram as máquinas digitais e você tinha a possibilidade de apagar as fotos, então por que não arriscar umazinha de você mesmo? Quando os celulares começaram a vir com câmera, todos os momentos passaram a ser registrados em tempo real, para melhorar a vida dos adeptos do auto retrato, veio a inovação da câmera frontal, dai em diante a selfie virou uma febre mundial. 


Até o pontífice se rendeu. 
Há quem odeie. Tem quem tire onda de quem faz pose sexy com frase de auto ajuda. Nada contra, acho o máximo! Vejo a selfie como uma expressão de amor próprio e superação, algo que combina certinho com um belo desejo de "bom dia". Há quem diga que é algo vazio, que é muito egocentrismo, não deixa de ser um lado da história, mas não é bem assim. 

 A selfie apareceu para mim num momento inusitado. Meu psicólogo (sim) me recomendou que eu tirasse fotos de mim mesmo e achasse "ângulos e características" que gostasse, como forma de vencer os meu problemas com imagem. Sempre tive muitos. Ex gordinho de óculos, com cabelo desgrenhado e orelhas de abano, no tempo que todo mundo na Malhação era super saradinho e jamais teve problemas de visão ou um dente torto sequer,  sofri o bullying que o diabo amassou na época do colégio. Demorei para aceitar que eu poderia e deveria me achar bonito. Nem preciso dizer que funcionou, né? Hoje sou rei das selfies, ousadas até! Com frase de auto ajuda SIM, afinal, não sou obrigado a ir na onda dos outros. Mais do que isso, depois das fotos, me sinto mais motivado para malhar e me cuidar, por mais idiota que isso possa soar. 
Dilma e a "Rousselfie".

 Essa pra mim é a graça da coisa; o auto retrato possibilita um mundo onde todos somos lindos e temos o direito de ser. Quando eu era mais novo não era assim. Só tinha foto quem podia; os populares do colégio, as patricinhas riquíssimas (minha adolescência foi um filme de sessão da tarde) e é por isso que eu amo tanto: A selfie é democrática! Tem para a gordinha, tem para a sarada, tem para o bear e para o magrinho, para a coroa e para a novinha, esse tipo de foto ajuda na luta contra os padrões estéticos impostos pela mídia. Quando você olha para você mesmo e define, sem importar o seu tamanho, sua barriquinha, sua cor  define que está bom é um ato de coragem.
Todo mundo pode (e deve) fazer! É uma auto afirmação. É se colocar no mundo como protagonista da sua própria vida, sem medo de ser feliz. Exatamente como deve ser. 

Wednesday, September 17, 2014

Gabriela e progresso que passou direto



Quando li o maravilhoso "Gabriela Cravo e Canela" de Jorge Amado, me senti um pouco triste. Não que o livro seja ruim, ou melancólico; não é nada disso. O livro é uma das obras primas do escritor baiano e a estória é bastante envolvente, deliciosa e divertida.

Passada na Ilhéus da década de 20, além da história de amor entre Gabriela e o árabe Nacib, o livro fala sobre um momento de transição cultural bastante peculiar, em que, a pequena cidade percebe que o coronelismo deve dar lugar à modernidade e ao progresso, tanto de pensamento, como industrial.

Pergunto-me então: Onde está a Gabriela das Alagoas, que, passados aproximadamente 90 anos, do encontro da protagonista com o árabe, ainda não trouxe o progresso para cá? Por que está demorando tanto?

Não é preciso ser alagoano para entender como foi construida a história política do estado. O estado se separou de Pernambuco como castigo por uma traição e desde então, passou de mão em mão.


O coronelismo é sim marca presente, no interior e na capital. Ele está presente desde a opressão aos mais pobres até a utopia dos mais ricos, que se acreditam importantes apenas por terem "amizade" com alguns dos "coronéis". Ele está presente no "jeitinho" que se dá ao jogar nomes de poíticos e empresários para não pagar multa, não enfrentar fila no médico, entrar primeiro na balada...

Este ano, nas eleições estaduais, nenhuma novidade: Já é dada como certa a vitória do filho de Renan Calheiros no primeiro turno; em segundo lugar, Biu de Lira, figura semi-cômica do cenário político, que ficou famoso por fazer uma dancinha em vídeo e ser eleito senador por isso.


Entre os candidatos a deputados federal e estadual, além dos nanicos e dos hilários, velhas figuras já conhecidas do nosso cenário, como o ex governador Ronaldo Lessa e o ex prefeito Cícero Almeida, que era antes, apresentador de programa polícial, abrindo caminho para muitos de seus colegas de profissão que se aproveitam do sensacionalismo midiático comum a esses tipos de programa para se eleger sem apresentar propostas para a melhoria da vida de um dos povos mais pobres do país.

Aparentemente a lei ficha limpa não vigora em Alagoas. Talvez, se valesse, nos confrontaríamos com a possibilidade de termos que devolver o estado ao vizinho Pernambuco, ou, transformá-lo em um enorme parque aquático.

Esse comportamento atrasado, que traz com ele a violência, ficou em nossa cultura, em nossa identidade, em nossas veias. Alagoas é o estado mais violento do país, as únicas explicações viáveis são a falta de investimento em educação e geração de empregos e também o histórico de violência que permeia a história política do estado, história essa coberta de sangue, balas e até barricadas na assembléia legislativa. Quem chegou ao poder não era intelectual ou visionário, era violento e bárbaro e foi essa a mensagem que ficou para o nosso povo.


Talvez seja por medo, de tanta violência e tanta miséria que a nossa Gabriela ainda não chegou para por um fim no sofrimento deste povo que vive acuado, vivendo entre o medo e a esperança de um destino menos imoral.

Wednesday, September 10, 2014

Você teria coragem? Perca o medo da maconha.




"Você teria coragem de ser operado por um médico que acabou de fumar um baseado?" Pergunta o anúncio veiculado em jornais de Fortaleza, capital do Ceará, seguido dos dizeres "Se a maconha for legalizada, isso será normal". Outro anúncio pergunta se você teria coragem de entrar num avião onde o piloto acaba de "fumar um bagulho"( amando a linguagem dos anúncios). Um terceiro, e na minha opinião, o mais hilário pergunta se você matricularia seu filho numa escola em que os professores dão aula "lombrados" (mais uma vez amando). Obviamente, essa galera não é de humanas.

 Mal sabem os autores dos anúncios que o bom senso está legalizado no Brasil desde antes de 22 de abril de 1500.

Em todas as áreas existem bons e maus profissionais. Ora, se você é médico, vai operar alguém e resolve ficar CHAPADO (o uso com moderação também é permitido) antes da cirurgia, isso quer dizer que você é um péssimo médico. O que acontece então, se o meu cardiologista resolve tomar umas boas doses de whisky 18 anos? Ou tomar o bom e velho rivotril ®? Essas entre outras substâncias mais perigosas que a maconha (olhar dados de morte relacionadas a álcool) são liberadas e existe até um certo "glamour" em volta delas, ou seja: caso a maconha seja liberada, nada vai mudar efetivamente. Cabe a cada um, enquanto profissional avaliar o que você deve ou não fazer antes de atuar. Ninguém será forçado a fumar um, a idéia não é essa. Como publicitário, pode até ser que a substância me dê uma forcinha; já pensou nas idéias? Mas ainda assim prefiro meu bom café preto para me deixar esperto.

 Acho que mais vale um médico chapado que um médico que diz que é hora marcada, mas quando tu chega lá na hora, descobre que é por ordem de chegada. Ou o médico que olha na tua cara por 30 segundos e diz que é virose sem aprofundar os exames. Com ou sem maconha, a ética profissional é o que prevalec


Essa galera estudou aonde?
A maconha no Brasil, ainda não é legalizada, todos sabemos. Recentemente, remédios a base de canabidol, que ainda são proibidos, foram liberados pela anvisa para uso de uma criança que sofre de epilepsia, - para a qual, o canabidol se mostrou extremamente eficiente - mas isso, só após a família entrar na justiça. Com o uso do medicamento, indicado por um médico, a menina, de quatro anos, deixou de sofrer até 80 crises convulsivas por semana. A família, antes, comprava o remédio de forma ilegal pela internet.

 Obviamente o caso acima não pode ser entendido, de forma alguma, como apologia as drogas, mas, vale ressaltar que, a maconha é proibida até mesmo para uso medicinal e para estudos e pesquisas científicas. Sabe-se que a substância pode ajudar pacientes com câncer, bem como o glaucoma, onde já se comprovou a eficácia.

 Nos EUA, em Washington, no Colorado e em outros estados a droga, que antes poderia ser usada apenas de forma medicinal, passou também a ser liberada para uso recreativo. Novas indústrias surgiram, pessoas estão investindo no mercado (de sobremesas inclusive) e até mesmo uma garotinha visionária, passou a vender cookies em frente a uma loja de maconha e está faturando uma boa grana saciando a larica da moçada.

 Nosso vizinho Uruguai resolveu, fazer um teste: Liberou a droga para consumo, - com algumas regulamentações, claro, como o limite de compra de 40 gramas mensais por usuário. A droga é vendida em farmácias e é um mercado fechado e controlado pelo Estado. Coincidentemente, ou não, o número de mortes relacionadas ao tráfico de drogas no país passou a ser inexistente.

 Muitas pessoas usam o argumento de que a maconha é uma porta de entrada para outras drogas, como a cocaína e o crack, isso é possível. Porém, a verdadeira porta de entrada para este caminho, muitas vezes sem volta é a falta de diálogo dos pais e educadores com os jovens. A sociedade prefere evitar os temas aos quais tem medo (casamento igualitário, anyone?). Prefere dizer "você vai morrer se fumar maconha" levando o jovem a questionar "mas e como tem tanta gente que usa e está de boa?"

 Na minha casa, onde o diálogo corre solto, pois, sou filho de psicólogos e de pais faladeiros e preocupados, rolou uma conversa (com revelações bombásticas) onde falamos abertamente sobre drogas. Quando adolescente, cumpri meu dever. Experimentei a maconha (entre outras) e não fui muito com a vibe. Prefiro minha cerva geladíssima, mas prometo que não vou pilotar nenhum avião.

Sunday, September 07, 2014

Inocência política

"Até mesmo verdades ditas na Fox News se tornam mentiras" - Lois Griffin. 


"Saiu na Veja", me disse o reaça. Parei e pensei se valeria a pena discutir com o cidadão. Eis aqui uma dica: não, não vale.

A velocidade da informação e as inúmeras plataformas para compartilhamento de notícias e principalmente as redes sociais fazem com que o máximo de informação que se absorva sejam o título e subtítulo de uma postagem ou matéria. O cidadão politizado brasileiro é aquele que compartilha memes: texto em cima e texto embaixo.

Como explicar para o cidadão o que significa realmente "ter saído na Veja"? Me lembro de um dos episódios de "Family Guy" (minha série preferida) em que Lois Griffin diz "Se saiu na Fox News é mentira. Até mesmo verdades, ditas na Fox News se tornam mentiras". O mesmo vale sobre a imparcialidade da revista Veja e outros meios de comunicação. (Globo News)

Não que seja mentira,  (ainda). Mas denúncias precisam ser averiguadas. O que a revista faz é matar a cobra e mostrar o pau antes mesmo do ataque. O oportunismo de divulgar uma "denúncia" em que todos os candidatos menos Aécio floquinhos de Neve recebem propina da Petrobrás me parece um tanto estranha. É mentira? Bem há de se investigar e provavelmente não é mentira, é apenas parte do jogo da supracitada publicação; uma tentativa de mudar os rumos da eleição presidencial - faltando menos de um mês para a mesma,-  para depois se auto proclamar a formadora de opiniões e decisões políticas do povo brasileiro.

Então as pessoas gritam manchetes com Dilma + Propina + Petrobrás e já fudeu tudo. O finado Eduardo Campos, que saiu desta vida como exemplo de ética, vejam só, também recebia propinas, para o terror da princesinha do pop, Marina Silva, que está ainda se adaptando a casa nova, o PSB e disse que não quer ver "Eduardo morrer duas vezes". Tadinha.  

Dilma mandou a máxima petista de que "vai esperar as investigações para saber que atitudes tomar"

Já Aécio que vinha caindo nas pesquisas agora ergue a cabeça e fala em "mensalão 2" e sai como o único bonzinho da história toda.

Então voltamos a questão: Verdade ou não, ainda não se sabe. Eu não sou tão inocente a ponto de dizer que não existiu e que foi tudo armação. A armação existe sim, quando se publica uma denúncia, não comprovada, que não configura crime. A armação existe quando se publica algo como verdade absoluta, selecionando os envolvidos e deixando de lado aqueles que interessam, os aliados,  ou seja, não é jornalismo, é militância.

Mas não seria esse o papel da mídia? Moldar o pensamento das pessoas? O que a revista faz é escolher o que e quando publicar. Nada se falou ou se fala sobre o mensalão do PSDB. Nada se falou sobre o helicóptero cheio de pó, ou sobre a administração falha de Aécio no governo de Minas Gerais. Nenhuma palavra sobre o Aeroporto ao lado da fazenda do tio de Aécinho.

O que aconteceu é que: Algumas pessoas entenderam que elas podem se fechar para alguns fatos e se abrir para outros. Se você falar sobre a satisfação do povo brasileiro em relação aos programas sociais, dirão que é tudo mentira. Que é tudo armado. Que ninguém gosta do Mais médicos e que o bolsa família cria um monte de vagabundos. Por mais que você mostre números, dados concretos, nada disso existe. Apenas a revista Veja.  

O folhetim faz direitinho o seu papel, as pessoas é que não fazem os deles. É preciso olhar os outros lados de cada história, buscar suas fontes. A presidente (me recuso a escrever "presidenta") não está diretamente envolvida em nenhuma das acusações, mas é para ela que são direcionados os golpes.

Você pensa em jogar essas cartas e a carta do apoio a ditadura militar, que a revista apoiou e ouve um "Mas era naquele tempo". O que fazer? Nada. Não adiantam nem mesmo os fatos comprovados. Quem quer acreditar que o Brasil virou Cuba acreditará de olhos fechados, sem levantar questionamentos. Não verá no oportunismo desesperado, da tentativa de elevar o PSDB - a cada pesquisa mais perto dos "nanicos".

Há quem acredite que a verdade é assim conveniente. Que tudo se encaixa perfeitamente, sem interesses partidários, ou sujeira nas mãos dos editores e repórteres. Há quem realmente acredite que só se falou em corrupção na era PT, pois, foi apenas nela que existiu a roubalheira. Há quem fale em saúde e educação com um saudosismo utópico, como se ambas houvessem existido em governos passados. A verdade é seletiva, tem a ver com interesses. A verdade é corrompida, não existe por inteiro. Você verá apenas aquilo que querem que você veja. É muito inocente acreditar  no bem e no mal assim tão bem definidos.

Veja mais do que aquilo que lhe foi permitido. Questione os interesses de suas fontes e não feche os olhos para o mundo ao redor. Você pode estar acreditando num grande conto de fadas, mas quem te conta é a madrasta.

Monday, September 01, 2014

#BRUNORESPONDE


"Não sou gay, por que deveria me importar com os direitos da comunidade LGBT?"

Veja bem, caro leitor; você deve se importar porque o buraco é mais embaixo e tem muitas outras coisas envolvidas nisso dai.
Primeira coisa que você precisa saber: O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito civil: você quer viver com outra pessoa e quem sabe colocá-la como dependente no plano de saúde ou deixar uma pensão, essas coisas que QUALQUER UM tem o direito de fazer. Não tem nada a ver com dois homens entrando na igreja vestidos de Cher, e se tivesse, bem... Isso é outra discussão. O que eu quero dizer é que: Direitos civis são uma questão que vai além da igreja e seus dogmas.
E é nesse ponto que eu quero chegar.
Quando um grupo de pessoas ganha um direito que todo mundo sempre teve, você não perde esse direito, nem isso torna-o menos importante.
Outra coisa: Você não é obrigado a comparecer ao casamento das duas meninas. Se não curte, fica em casa lendo Olavo de Carvalho, faça-nos o favor.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo tem sido considerado um direito em vários países do mundo; EUA, França, Canadá, Argentina e lá na Inglaterra a rainha foi lá dizer que tava tudo liberado e que ninguém tinha nada a ver com isso.
Recentemente vimos a candidata Marina Silva publicar em seu programa de governo que iria cuidar e proteger da comunidade LGBT, porém, 24 horas depois, após algumas alfinetadas do pastor Silas Malafaia, a candidata voltou atrás, disse que tava brincando e não era bem assim.
E é ai que vive o problema:
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é só a ponta deste iceberg que apelidamos carinhosamente de FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO. "Mas Bruno, seu bosta! Eu sou religioso". E você tem TODO O DIREITO DE SER! Mas as pessoas também tem o direito de NÃO SER e não seria esse o certo? Como você se sentiria se eu entrasse na sua igreja distribuindo panfletinhos falando sobre Darwin e a teoria da evolução? Pois é. Não sou cristão nem nunca fui e quase sempre sou obrigado a pegar esses panfletinhos falando de Deus. Encaro numa boa, sorrio e agradeço e sigo minha vida.
Se deixarmos os fundamentalistas vencerem essa batalha, em breve eles vão atacar em outras vias: A cervejinha do seu fim de semana, o futebol que você ama, a tatuagem que você pode escolher fazer, o show de rock que você sempre sonhou, o baile funk que você adora, a rave irada na praia... Essas pequenas coisas que para nós, pode não significar muito, mas para eles é coisa do demônio (que a cada tweet de Malafaia me parece mais simpático).
Então, para concluir: O direito que duas pessoas tem de casar com quem elas quiserem (no civil, reitero. A fé, assim como a sexualidade, é individual, cada um tem a sua, ninguém mexe na dos outros) representa a liberdade. Se você é a favor de LIBERDADE PARA TODOS, não vote em fundamentalista. Eu digo fundamentalista, pois, sei que nem todos os evangélicos pensam da mesma forma. Existem várias igrejas e várias vertentes. E isso é liberdade.
Mas não podemos ter liberdade só para esse povo daqui e esse daqui. A galera da Umbanda, do Candomblé também tem que ser livre. Eles estão aqui pois foram trazidos da África, agora, eles fazem parte da nossa identidade e devem ser tratados com respeito e dignidade.
Não vote em quem baseia suas convicções no preconceito, no fundamentalismo, na ignorância. Procure saber qual a posição do seu candidato sobre certos assuntos. Nosso país só irá para frente quando todos tivermos os mesmos direitos e não só os mesmos deveres.
Para terminar, te deixo com mais uma reflexão: Num país com um alto número de violência, analfabetismo, corrupção, um caos na saúde e na educação, vale a pena votar em quem perde tempo cuidando do cu dos outros?
Pense bem nisso.

Monday, August 11, 2014

O RASTRO QUE DEIXEI NO MUNDO



Percebi que, a medida que caminhava, ia me desfazendo em uma matéria empapada composta de sangue, suor e lágrimas, o pouco que andei de manhã me fez perder as solas do pé. Algumas pessoas me encaravam com nojo, eu não liguei, afinal, estava morrendo e quando se está morrendo, não temos tempo para ligar para o que os outros pensam de nós, o que, na verdade, configura uma bela filosofia de vida, visto que, estamos, desde o momento que nascemos, caminhando para a morte.

Larguei a mochila no chão - não queria peso extra, fiquei parado no meio da calçada, diante do rastro de mim, o rastro de corno (sim, sou corno) que deixei na rua. Algumas pessoas desviavam, outras, com medo de que tudo não passasse de um teste de solidariedade, desses apresentados no fantástico, me ofereciam ajuda, mas com um certo nojo de me tocar e instantaneamente começarem a derreter também. Eu não estava sendo simpático nem nada, afinal, eu tinha que calcular meus passos. Eu ainda tinha, provavelmente, 1,70m de Bruno para gastar. Visto que andei aproximadamente 1km e perdi uns 10 centímetros, era fácil calcular que havia sido eliminado 10cm de Bruno em 1km. Eu poderia andar 17 Km, então acionei o Google Maps (obrigado Google Maps) e estabeleci uma rota.

Ao seguir em frente, uma senhorinha, que só agora percebia o que se passava, desmaiou e caiu sobre meu rastro, vomitando e deixando então um rastro de si mesma, coitada, que já não tinha mais idade para deixar rastro nenhum que não fosse um desagradável cheiro de guardado que nem ela sabia de onde vinha.

Um cachorro, desses pugs caríssimos de última geração que as madames carregam, começou a comer meu rastro, a Dona, Madame, estava entretida demais com algo no celular para se importar com o que o cachorro, que servia apenas para preencher lacunas no instagram e se chamava Jorge, estava fazendo. Jorge abocanhava belos pedaços de rastro e parecia bastante satisfeito com o sabor, o que me fez sentir bem por alguns momentos.

Algumas pessoas estavam me filmando com o celular, torcendo por mim. Algumas já choravam e faziam longos textos, correlacionando o meu derretimento com situações de suas vidas, como  um namoro que não deu certo "Bruno está derretendo como o amor que um dia tivemos", com o salário que mal chegava e acabava, com a gordura acumulada na barriga, que, ao contrário de mim, não derretia.

(Jorge estava me botando pra fora, criando agora, um terceiro rastro, eu, a velha e o cãozinho jorge, unidos numa calçada perto da orla).

A imprensa apareceu, helicópteros, carros adesivados, cambistas cobrando ingresso, funkeiros sem fone de ouvido, sarados fazendo cooper, saradas fazendo cooper, tapioqueiras se aproveitando da multidão e eu olhando o céu, sobre meus toquinhos, respirando o cheiro de maresia, feliz, feliz da vida com a rota que havia decidido, calculei que chegaria ainda com ombros no destino estipulado, feliz de mim.


Metade de mim, parou em um banco e ficou olhando o mar. Eu precisava disso. As pessoas que acompanhavam e a imprensa fizeram silêncio, todos tensos, sem saber qual seria meu próximo "passo".

Parei para tomar uma casquinha e segui em frente. Pessoas colocavam bandeiras do Brasil em suas janelas, carros buzinavam em apoio, apresentadores de TV vendiam camisetas escrito #EstamosTodosSumindo e no entanto só eu estava.

Faltava pouco de mim e pouco do caminho, já via meu alvo e no entanto, fui atingido na cabeça por um piano de cauda, que me rachou o pouco que me restava, mas, me deixou, mesmo morto, com um sorriso permanente de dó-ré-mi-fafá de Belém. Recolheram o que restou do meu corpo e do meu rastro e me jogaram ao mar seguido de aplausos e uma comoção que durou ao todo cinco minutos, depois, cada um seguiu para suas casas, passando por cima de onde eu passei sem dó nem piedade, apagando aos poucos o rastro que eu deixei no mundo.

Tuesday, April 29, 2014

SOMOS TODOS COXINHAS


A questão das chamadas “minorias" vem sendo amplamente discutida no Brasil. Impulsionada pelas redes sociais, o foco passou a ser daqueles que, antes, não tinham vez: negros, mulheres e homossexuais encontraram na internet uma forma de fugir da mídia tradicional que propaga valores antigos e deturpa a visão da sociedade para certas questões; principalmente as sociais, chamando, por exemplo de “vândalos” os que lutaram por seus direitos nos protestos de julho do ano passado.


 Na tentativa de retomar os espaços que antes lhes pertenciam, eis que surge um grupo denominado “coxinhas”; pessoas que não sabem do que estão falando, mas falam mesmo assim. Tendo como mártir, líder e maior representante o apresentador Luciano Huck, têm como uniforme camisas Reserva (que tem uma linha exclusiva do supremo Huck) e usam de uma falsa simpatia para tentar fazer parte do que está em voga nos movimentos sociais espalhados nas redes.

 Recentemente, num episódio lamentável do futebol, um torcedor do Vilarreal atirou uma banana na direção do Jogador brasileiro Daniel Alves. O ato racista não é inédito e acontece inúmeras vezes em partidas de futebol, não só na Europa, mas ao redor do mundo. Numa atitude corajosa e  louvável, o jogador, com muito bom humor, comeu a banana e chutou o escanteio em um dos lances que levou à vitória do Real Madrid.

 A comparação de negros com macacos é estúpida, lamentável e existe há séculos. O homem branco se sentiu no direito de exterminá-los, escravizá-los e subjugá-los. Em 1906, um homem do Congo foi exposto num zoológico de Nova Iorque; na época cientistas afirmaram que ele pertencia a uma raça inferior à humana.

 Em apoio ao colega de time, o jogador Neymar, tirou uma foto empunhando uma banana, com o filho louro no colo e usando a hashtag #somostodosmacacos. (que soubemos depois, foi pensada pela agência de publicidade que cuida da imagem do jogador fora dos campos). Até aí poderia ser apenas um equívoco. Ora, se você diz “somos todos macacos” você está de certa forma admitindo que negros são sim macacos, mas não, eles não são. Ninguém é. Do ponto de vista evolutivo, no qual faço questão de dizer que acredito, nós e os macacos temos um ancestral em comum. É errado dizer que o ser humano veio do macaco. Não foi bem isso; nós, assim como eles, viemos de um mesmo lugar, mas, nenhum de nós, humanos, continuou macaco.

 Para piorar a situação do reforço do estereótipo que deveria ser negado, Luciano Huck tirou uma foto com uma banana ao lado da loiríssima mulher Angélica e usou a afamada hashtag. Somos todos macacos. Será? Será que Luciano Huck, sua mulher Angélica e seus filhinhos loiríssimos teriam bananas atiradas a eles? Será que Luciano e sua família, seriam “confundidos" com traficantes, e deixados mortos atrás de uma creche? Será que as pessoas olhariam torto para eles, caso entrassem em um shopping? Será que seriam arrastados por um carro, como algo sem valor?

 A campanha tem boas intenções, mas de boas intenções o inferno e a internet (talvez sejam a mesma coisa, pesquisar) estão cheios. Além do equívoco de “aceitar" a macaquice de uma raça, a coxinhagem de “descer" ao nível do discriminado, ao invés de elevá-los ao nível de igualdade e justiça, apenas demonstra que o Brasil ainda é um bebê em relação às causas sociais.

 Homens brancos não sabem o que é ser negro, o que é ser favelado, o que é ser julgado. É hipocrisia querer “fazer parte” desta questão tão séria. Não é colocando todos no mesmo patamar “abaixo” que seguiremos em frente. 

Como podem os mesmos que são contra as cotas raciais nas universidades federais alegando que “eles deviam simplesmente se esforçar mais e estudar como todo mundo” agora se dizerem “também sou assim”? Como podem as pessoas que são contra os projetos sociais, como o bolsa família, alegando que “deve se ensinar a pescar” agora dizer “sei o que você está sentindo”. Como pode a mesma sociedade que julgou a greve dos garis e não a dos médicos dizer “não se preocupe, estamos juntos”?

 Menos de 72 horas depois do caso e do surgimento da “campanha" Luciano Huck e sua marca, através da grife Reserva, começaram a vender com a foto de uma modelo loira uma camisa com uma banana estampada e os dizeres “somos todos macacos”. Pelo jeito, alguns macacos são bastante espertos na hora de usar de mazelas sociais para se promover, para parecer bonzinho, inofensivo. Mas não se engane: Nem somos macacos e nem somos bananas!