Sunday, August 07, 2011

A morte e a morte de Dimitri Navarro.

Os dedos comidos, roídos, cortados.

Não se pode espremer um limao para colocar numa pinga. Os dados ardem, doem como a alma que me falta, desço a pinga num gole só e ela corta, queima minha garganta e desce me fatiando em duas partes. Meu estômago a muito já fudido protesta mas eu não o ouço. Ainda não vejo em dobro.

Os dedos comidos, cortados como se eu quisesse libertar a minha alma deste corpo que não é dela. Como se um dia eu tivesse acordado em uma vida que não é minha e é isso que tem para hoje.

Estranhos no ninho, estranhos ao redor e algo aconteceu com o pequeno Dimitri que era engraçado e que sabia viver.

Sem alma, sem fígado e sem coração, o pobre Dimitri segue, sem nenhum apelo, por esta vida onde ele não é o protagonista. Uma vida que nunca foi sua, que de repente caiu nos seus braços. Como uma sequencia de filme onde de repente o ator principal é muito importante para continuar e te colocam no lugar sem nenhum aviso prévio.

Acordei e tinha alguém segurando a minha mão e dizendo que tudo ia dar certo.
Acordei e havia perdido duas décadas e eu estava vivendo num mundo onde as pessoas são importantes. Não soube agir.

Numa tentativa idiota de quase conseguir eu arrumei um emprego que preenche a maior parte dos dias que não são meus e me ocupei de mudar o meu corpo e de falar besteira. Me ocupei também de tentar entender a minha vida ouvindo os problemas alheios. Ninguém sabe que eu já morri pelo menos umas três vezes e ninguém pergunta. Tudo está configurado, as pessoas sabem quem eu sou e eu não sei quem elas são. Todo dia, as 6:30 da manhã o diretor diz: “ação” e Dimitri segue em frente.

No resto eu bebo, escreve e acho que não fumo mais.

Nunca mais comi ninguém. Acho que desde que voltei a viver não comi ninguém. Me masturbo constantemente, mas o ato mecânico de ejacular já não me satisfaz como antigamente.

Eu nunca mais amei ninguém.

Que Deus amaldiçoe a minha segunda morte da qual eu nunca voltei. Que Deus me castigue por ser tão idiota!

Vou me afastando e vou sumindo, vou roendo as unhas e comendo os dedos. Vou espalhando ódio, semeando discórdia, filho de Heris, metade homem metade inferno, aos poucos vou ficando sozinho e vou morrendo de pouquinho até o ponto em que eu vou viver de novo e meus dedos comidos não me permitirão nem espremer um limão.

1 comment:

hpaulista said...

Compartilho da sua dor.
Força pra nós.
abç